Eu não nasci pra concurso…


À medida que fui obtendo minhas aprovações em concursos, passei a escutar, com frequência, que eu tinha “nascido pra coisa”. Algumas pessoas conhecidas, que também prestavam os mesmos concursos e não passavam, diziam que “não tinham nascido para concurso”.
Mas, o que significa “nascer” pronto para passar em concursos?
A única explicação possível para uma frase assim estaria na base do pensamento mágico infantil, no qual o sujeito adota uma postura que nega toda a racionalidade, a lógica. Esse pensamento faz a pessoa acreditar que os resultados e o sucesso vêm de fora, como algo externo à vontade, ou alheio às atitudes e comportamentos.
Não, eu não nasci para concurso.
Tudo bem que eu não enlouqueci, não deixei de fazer análise duas vezes por semana, não deixei de namorar, nem de sair sábado a noite, nem de beber na balada (só um pouquinho). Não fiquei sem amigos, não deixei de praticar atividade física, de dar risadas, nem de ir ao cinema, nem deixei de trabalhar. Não parei de fazer minhas unhas e ir ao salão de beleza!
Todas essas coisas que eu escutava dos concurseiros, eu não fiz.
Mas eu estudei para concursos. Eu fiz análise duas vezes por semana. Eu passei várias horas do dia, durante vários dias, estudando conteúdos os quais eu não gostava nem um pouco, e por isso mesmo, os estudei mais ainda. Eu estudei também os conteúdos que eu gostava, e até aqueles que eu achava que já sabia tudo. Eu respondi centenas de milhares de questões de provas passadas, especialmente aquelas da banca examinadora do concurso que ia prestar. Eu deixei de passear nos sábados a tarde e de dormir até mais tarde nos domingos do momento em que saía o edital até a data da prova. Eu deixei a atividade física para só uma horinha, quatro vezes por semana.
No dia anterior a prova do TRTGO (onde trabalho hoje), minhas amigas da psicologia me ligaram para a gente se encontrar num barzinho, para relaxar antes da prova. Eu não fui. Elas falaram que eu era “caxias”, que já tinha estudado o suficiente. Eu passei o dia estudando, tranquila, sem ficar arrancando meus cabelos e sem comer uma caixa de doces, mas estudei como havia estudado todos os meses anteriores.
Eu passei, elas não.
Talvez, afinal de contas, eu tenha “nascido para coisa”. E você?

Instrutora e proprietário do Preparatório para Concursos Marina Cançado.